O que há por trás do tarifaço de Trump 

FILE PHOTO: U.S. President Donald Trump reacts before boarding Marine One, while departing the White House en route to Florida, in Washington, D.C., U.S., April 3, 2025. REUTERS/Carlos Barria/File Photo ORG XMIT: FW1
Medidas podem enfraquecer a diplomacia americana e desencadear um movimento coletivo de represálias aos EUA. Foto: Reuters/Folhapress.

O tarifaço de Donald Trump – como ficou conhecido o aumento dos impostos para importações anunciado pelo presidente dos EUA – pode reorganizar a economia internacional. No que chamou de ‘Dia da Libertação’, Trump determinou que qualquer produto importado pelos EUA será taxado em pelo menos 10%.

Os valores variam de país para país. O Brasil ficou com a menor taxa, de 10%, ao lado de Argentina, Reino Unido, Singapura, Austrália, Nova Zelândia, Turquia, Colômbia, entre outros. Ainda assim, por aqui a medida deve impactar, principalmente, os setores de petróleo e ferro, que já tinham taxas altas. Como resultado, as bolsas de valores derreteram pelo mundo nesta sexta-feira, 4.

O tarifaço já era esperado desde o início de janeiro, quando Trump anunciou a medida. Mas seu ‘Dia da Libertação’ é uma resposta intensa ao declínio econômico e tecnológico dos EUA, que está em curso desde os anos 1990 sobretudo pela ascensão da China. 

Atualmente, a economia dos países do bloco europeu está estagnada e a norte-americana segue em ritmo lento de crescimento. São os países dos Brics que lideram o crescimento global.

O fortalecimento dos concorrentes dos EUA acendeu um sinal de alerta, e teve como resposta o espraiamento do sistema de sanções comerciais para além da periferia capitalista, alcançando países como China e Rússia e buscando obliterar quaisquer tentativas de ascensão de uma potência na Eurásia.

Por isso, o tarifaço de Trump não está descolado de outros ataques dos EUA ao sistema de livre comércio internacional. Em 2012, durante o governo do democrata Barack Obama, os EUA bloquearam as nomeações de novos juízes para o Supremo Tribunal de Comércio da Organização Mundial do Comércio. 

A justificativa era que a China estaria sendo beneficiada pelo órgão e que haveria ameaças à soberania americana, já que, segundo a Constituição dos EUA, um tribunal estrangeiro não poderia sobrepor-se a um americano.  

É neste contexto, de ameaças ao imperialismo estadunidense – notadamente no campo militar, com a derrota recente da Otan na guerra na Ucrânia, no campo tecnológico, com a potência chinesa, e no campo monetário, com o avanço da discussão sobre desdolarização – que os EUA, mais uma vez, vão para o ataque. 

Do blefe à realidade do tarifaço

Donald Trump foi eleito com uma plataforma de “fazer grande a América” outra vez, pautada no enfrentamento das regras de política comercial, na desglobalização e na deslocalização da indústria e do investimento para o leste asiático. 

O que até então era o sistema de tarifas bilaterais e avaliações de blefe se tornou um pacote global de aplicações de tarifas, inclusive – ou sobretudo – aos históricos parceiros políticos e econômicos dos Estados Unidos. 

Esse anúncio fere de morte dois sustentáculos do êxito recente da economia americana. 

O primeiro deles é o sistema multilateral de comércio, erigido sob a liderança dos EUA no pós segunda guerra mundial, quando houve a instituição do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio e a liberação comercial que daria espaço ao surgimento da Organização Mundial do Comércio, a OMC. Esse sistema foi extremamente benéfico aos EUA por quase 70 anos, até a crise econômica internacional de 2008. 

O segundo pilar é o da globalização, que – curiosamente – iniciou com a ação unilateral dos EUA reduzindo as tarifas comerciais e forçando os demais países a caminhar no mesmo sentido. 

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A saída dos EUA da OMC e o anúncio do pacote de tarifas ocorrem sob a justificativa de enterrar o “sistema geral de preferências” da OMC, que apregoava que os países pobres e da periferia capitalista teriam suas importações taxadas com alíquotas entre 5 e 8%, mas exportariam às economias centrais matérias-primas com alíquotas muitos maiores. 

Por isso, Donald Trump não apenas falou em  “liberdade”, mas trouxe no seu discurso a expressão “reciprocidade”, buscando corrigir esse mecanismo que foi erigido para promover mais justiça aos países subdesenvolvidos. 

Isso explica as tarifas de 80% para alguns países africanos, com quase nula contribuição na pauta comercial americana. 

Na dinâmica interna, o anúncio da majoração sobre as tarifas comerciais tem apoio explícito de duas frações da burguesia americana. A primeira é a das empresas não transnacionalizadas, que poderão abocanhar parte do mercado interno fortalecendo bens antes importados. A segunda são as big techs, que têm interesse em melhor se posicionarem frente à liderança tecnológica chinesa. 

O setor prejudicado, as grandes empresas multinacionais, seria compensado com outra medida importante anunciada no mesmo dia, a redução substancial de impostos domésticos. Trump, nesse sentido, se filia a um neomercantilismo moderno, típico do século 19, em que o déficit comercial é coberto por tarifas de importação. 

O tarifaço, no entanto, é uma manobra arriscada. Por um lado, pode contribuir decisivamente para a crise da economia norte-americana, cumprindo o seu desígnio de retomar a produção industrial ao território dos EUA, contribuindo para o fortalecimento econômico e tecnológico, além dos impactos benéficos sobre o emprego e a renda local. 

No entanto, ao menos dois outros impactos podem decorrer desse processo: o primeiro deles diz respeito às consequências de curto prazo dessas medidas na economia americana.

O Brasil e a periferia capitalista têm diante de si uma janela histórica.

Diversos analistas já preveem um repique inflacionário imediato, uma vez que o custo das tarifas deve ser repassado para os preços finais. É possível, até, que os EUA amarguem algum tempo em recessão, com impactos na popularidade do governo, já que haveria aumento do desemprego e subida no nível de preços. 

Há, ainda, a possibilidade de o tiro sair pela culatra. Em 2017, o Senado americano realizou um levantamento indicando que sanções comerciais contra a China ampliaram, ou invés de reduzir, o déficit comercial dos EUA com relação à potência asiática. 

Dessa forma, há possibilidades da medida reduzir exportações sem a devida compensação na diminuição das importações. Do ponto de vista produtivo, ainda, é possível que as incertezas globais freiem um redeslocamento da grande indústria para os EUA, pela vulnerabilidade de sustentar uma decisão de investimento em cima de premissas tão frágeis. De fato, reindustrializar um país com base em política comercial não é uma estratégia sustentável no longo prazo. 

Por fim, e mais importante, essas medidas podem enfraquecer a diplomacia americana e desencadear um movimento coletivo de represálias aos EUA, ou com aumento das demais tarifas ou com o fortalecimento de acordos comerciais à revelia dos EUA e do sistema dólar. 

Nesse sentido, o Brasil e a periferia capitalista têm diante de si uma janela histórica. Será preciso, no entanto, ousadia para aproveitar o período de ataque externo para impulsionar políticas de fortalecimento do sul global e das suas instituições de cooperação, em especial o Brics e os acordos regionais.

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